
“Vamos ao divã?”
A pergunta foi feita sem pressa, sem expectativa e sem qualquer obrigação. Durante muito tempo, aquela possibilidade parecia distante.
O processo terapêutico havia começado no formato online. Para aquele paciente, a tela representava uma distância segura. Era dali que ele conseguia falar sobre si, experimentar a relação terapêutica e construir confiança.
Com o passar do tempo, veio a transição para o atendimento presencial. Ainda assim, o divã permanecia como algo que não fazia sentido. A poltrona era o lugar possível. O lugar conhecido. O lugar onde ele se sentia confortável para continuar seu percurso.
Até que, um dia, diante do mesmo convite, a resposta foi diferente:
“Sim. Por que não?”
Pode parecer um detalhe. Afinal, tratava-se apenas de mudar de lugar dentro do consultório. Mas, na prática clínica, sabemos que raramente se trata apenas disso.
O divã carrega uma história dentro da psicanálise. Ele propõe uma experiência diferente da conversa face a face. Ao não manter o olhar constante sobre o terapeuta, algumas pessoas conseguem se aproximar mais livremente de pensamentos, lembranças, emoções e associações que talvez permanecessem filtradas na presença direta do outro.
Mas o divã não é uma exigência. Não é um símbolo de evolução. Não é uma etapa obrigatória do tratamento.
Há pacientes que realizam um trabalho profundo sentados em uma poltrona durante toda a terapia. Outros descobrem no divã uma forma mais livre de falar. O importante não é o lugar onde o corpo está, mas o espaço psíquico que se torna possível ocupar.
Por isso, quando um paciente resistente ao divã decide experimentá-lo, o acontecimento pode revelar algo maior: uma ampliação da confiança. Não necessariamente na terapeuta, mas no processo, na relação construída e, principalmente, em si mesmo.
A clínica nos ensina diariamente que cada pessoa possui seu próprio ritmo. Vivemos em uma cultura que valoriza a rapidez, os resultados imediatos e as transformações visíveis. Entretanto, os movimentos mais significativos costumam acontecer de maneira silenciosa.
Primeiro, alguém aceita iniciar uma terapia.
Depois, aceita permanecer.
Mais tarde, aceita aprofundar perguntas.
E, em algum momento, quase sem perceber, aceita experimentar algo que antes parecia impossível.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados do trabalho clínico: respeitar o tempo.
Nem toda resistência precisa ser vencida. Muitas vezes, ela precisa ser compreendida. Quando encontra acolhimento suficiente, a resistência deixa de ser uma barreira e passa a ser uma ponte.
A resposta “Sim. Por que não?” não falava apenas sobre um divã. Ela falava sobre alguém que, ao longo do caminho, descobriu que já podia ir um pouco mais longe.
E isso, na terapia, costuma ser muito mais importante do que qualquer mudança de lugar.
“Na terapia, não apressamos travessias. Apenas acompanhamos até que a pessoa descubra que já consegue caminhar sozinha.”

